Messias Rodarte Correa ingressou no Judô aos 15 anos
de idade, através de Takeo Yano. Na época,
só se falava em Jiu-Jitsu. Na ocasião, veio
do Japão para o Brasil, o professor Fukaya que era
muito bom lutando em pé ou no chão. Fukaya
fez sociedade com o Dr. Arcênio Martins, e ambos abriram
perto do mercado central um Dojô. No local, durante
o dia funcionava um escritório de uma empresa japonesa
e à noite, eles colocavam tatames para o pessoal
treinar.
“Acompanhei os dois por muitos anos. Onde estavam
os japoneses, eu também estava”. Conta o Sensei
Messias. Ele lembra com saudade que saía do laboratório,
onde trabalhava, na Rua do Glicério, e à noite
ia treinar. Outro que também treinava com eles era
Yano. “Era uma ponte entre todos os japoneses da região
de Mogi das Cruzes e Suzano. Eles vinham descarregar no
mercado e traziam seus kimonos. Eram todos lutadores. Treinavam
e lutavam. O Sensei Fukaya, por exemplo era muito bom. Ele
fazia a turma toda lutar de pé e no chão”,
explica.
A história viva do Judô Paulista conta que
após essa fase, veio para o Brasil a luta-livre tipo
marmelada, atreves de Antonio Rocco. Ele recorda também
que o professor Takeo Yano se viviou em jogos e se uniu
a essa turma que praticava a luta-livre. Aí a coisa
começou a descambar para ele que largou a família,
se entregou de vez, ficou tuberculoso e morreu pobre. “Quando
ele não tinha vícios, lembra Messias, lutava
muito com o pessoal dos Gracies, no Rio de Janeiro. Depois
disso sempre procurávamos um local que tinha luta,
Íamos de trem a Suzano e Mogi das Cruzes e dormíamos
por lá. Muitas vezes, nas plantações
de algodão, por falta de tatame, cortávamos
capim barba de bode para forrar o chão”, comenta
Messias. E fala também que ele e seus colegas jogavam
uma lona por cima do capim e pronto. Só dava ele
de Gaijim (estrangeiro em japonês) no meio da japonezada.
“Como diz o velho ditado: Eu era feliz e não
sabia”. E Messias prossegue contando suas aventuras
no início do Judô Paulista: “Só
que eu voltava para casa todo arrebentado, pois a gente
ia lá para treinar mesmo, e se você desse moleza,
eles não te aceitavam. Então você tinha
que ir pra cima deles. Fora isso tinham outros dojos desse
tipo. Ficavam em outros pontos das plantações.
Pegávamos a bicicleta emprestada e íamos treinar
nesses dojos improvisados. Na época, o pessoal da
colônia só falava em japonês. Quando
dormíamos nas plantações, o ruim era
que não tinha chuveiro para tomar banho. A gente
precisava colocar uma lata numa espécie de tripé.
Depois, puxava e a água caia, mas o pessoal da lavoura
ficava com o komino bastante sujo”. Messias salienta
também, que às vezes, eles davam comida e
outras, não. “Era difícil, a gente tinha
que tapear a fome bebendo água e em seguida, ia para
a luta, mesmo com fome. Logo cedo eu encontrava pelo caminho
um amigo ou outro que ia comigo, mas geralmente, eu ia só.
Essa foi uma forma que encontrei para poder treinar”.
“No inicio, detalha o Sensei Messias, eu tive que
fazer muitos sacrifícios para poder ir às
colônias e aprender com eles. Elas estavam, muitas
vezes, muito longe da capital. A evolução
deles foi em cima da agricultura. Quando eles chegavam ao
País, faziam um rancho para morar e treabalhavam
com toda a família. Quando eles arrumavam um dinheiro
extra através da produção, compravam
um trator e depois um caminhão. Outro passo era pegar
um nissei (filho de japonês) que falasse razoavelmente
o português, para ir aos mercados com ele, livrando-se
assim de seus patrícios (nipônicos). Era uma
forma de ganhar a independência financeira daqueles
que ganhavam em cima deles. Parte do dinheiro, ia também
para o Judô e outra para o dentista ou a professora.
E por último, para a própria casa. Geralmente
esses imigrantes vinham do Japão com bastante estudo,
mas devido ao problema do idioma ser completamente diferente,
eles se viam obrigados a trabalhar na lavoura, porém,
eles se ajudavam entre si e formavam cooperativas”.
Messias afirma que no começo não vivia do
Judô, mas depois começou a dar aulas mesmo
trabalhando no laboratório, o qual ficou por muitos
anos. Ele explica que muitos dos seus alunos eram pobres
e não tinham condições de pagar. Mas
com o tempo, o que ganhava no emprego deu pra ir aplicando
em prédios e que a coisa foi melhorando aos poucos.
Ele conta também que, quando era criança,
tinha 10 irmãos e seu pai nunca teve casa própria
e sempre pagou aluguel. Para ele, aquilo era muito ruim.
Na época de solteiro, Messias disse que possuía
dois terrenos no bairro de Itaquera, zona leste de São
Paulo, e que foi empregando seu dinheiro e deu sorte. “Eu
tinha muitos amigos que me ajudaram e deu tudo certo”.
O INÍCIO DA F.P.J.
A F.P.J. quando foi fundada, conta Messias, não existia
nem tatame nela. Assim cada professor tinha que emprestar
20 tatames. “Além disso, ajudávamos
a pagar o caminhão e os professores iam juntos para
ajudar a descarregar e montar as áreas de competição.
No início era tudo muito difícil. Na volta,
por exemplo, era aquele pinga-pinga. Em geral nossas competições
aconteciam no ginásio do Pacaembú”,
recorda o Sensei.
DE VOLTA AO PASSADO
“Após a morte do professor Takeo Yano, eu me
juntei ao professor Fukaya e em 1951 veio meu diploma do
Japão. Antes da fundação da Confederação,
os diplomas vinham todos do Japão através
do Dr. Yoshio, professor Fukaya, professor Akao e professor
Okochi. Hoje possuo mais de 60 diplomas de todos os cursos
que fiz com esses velhos mestres. Já os diplimas
de grau, estes vieram da Kodokan-Japan. Depois que fundaram
a Confederação, isto foi em 18/03/69, os diplimas
não vinham mais do Japão”.
FAZENDO HISTÓRIA
Ao fazer uma retrospectiva do período de treino junto
a colônia japonesa, da fundação da C.B.J.
e também da década de 70, Sensei Messias disse
que antes de tudo é brasileiro, maior de idade e
vacinado, portanto tem toda autoridade para falar de Budokan
e Kodokan e da família Ogawa, ou seja, daquilo que
viveu e conheceu. Ele narra também que o Budokan
e o Kodokan viviam brigando. Era uma tremenda briga política.
Eram grupos separados. As competições aconteciam
entre eles, ou seja, Budokan competia com Kodokan. Eles
tinham muitas filiais. Só em São Paulo existiam
21 filiais. E quando aconteciam competições
abertas, eles ganhavam tudo. Enquanto eu entrava com 10
judocas, eles entravam com 100. Tudo deles era separado,
até as festas.
Eles foram saindo. Saiu o Curati, depois o Shinohara, aí
foi o professor Kussama, já falecido. E outros mais
cujos nomes agora não me vem a lembrança.
Num determinado dia, o Dr. Okochi achou que deveria mudar
a linha de trabalho político aqui no Brasil e por
ele ter nascido no Japão, afirmava que os melhores
mestres estavam lá na Kodokan. Ele trouxe por sua
conta e risco o professor Okano. Ele pesava 72 Kg e um dia
em visita a nossa escola, o professor Fukaya chamou os lutadores
mais fortes e pesados do Budokan e fez um Okachinuki (onde
fica só o que está ganhando as lutas). Veio
o primeiro lutador, ele cumprimentou e jogou, assim como
fez com todos os que apareceram na sua frente. Não
importava se fossem grandes, pequenos, o grau que tivessem.
Ele desceu o pau em todo mundo. Só para lembrar,
lá no Japão, o Okano foi professor do grande
Chiaki Ishii. A partir daí o grupo que era fechado
começou a abrir e rachar. Isso fez com que o Judô
abrisse mais e se tornasse o que está aí.
Contando mais um pouquinho da história do Judô
brasileiro, vale a pena lembrar também que foi o
Yoshio Kihara quem trouxe o Kata para o Brasil.
“Todas as noites rezo pelos professores que introduziram
o Judô na vida e na formação dos brasileiros.
Portanto, sem dúvida alguma, Yoshio foi um dos que
mais se dedicou ao ensino do Judô. E, nesta primeira
geração de imigrantes japoneses, que começa
a praticar Judô aqui, não o fazia politicamente,
mas sim, como uma forma de trabalho e principalmente, por
amor a arte que aprenderam em seu país”, comenta
Messias.
A GRATA SURPRESA
“Sempre me dediquei demais ao Judô. Fiz o Judô
com amor e o faço até hoje. Militares, médicos,
advogados e muitos outros profissionais já se formaram
em Judô aqui dentro”, observa Messias com muito
orgulho. “recordo-me do dia em que eles fizeram uma
surpresa, convidando todos meus ex-alunos. Quando entrei
levei um grande susto. Cheguei até mesmo a engasgar,
já que não os via há muitos anos. Eles
vieram de todos os lugares. Trouxeram presentes. Foi uma
recordação muito forte e difícil de
se esquecer, pois eles fizeram uma grande festa para comemorar
o meu 9º grau, que estava recebendo.
Observação: Esta matéria é parte
da revista Kiai nº 27 do ano de 1997 – Revista
do arquivo pessoal do Faixa preta 1º Dan Edgar Martinez
Soares Moya, aluno do Sensei Messias Rodarte Correa.