por
Antonio Borrego
O
Jiu-Jitsu, que pode ser traduzido como Arte Suave, é
um sistema de combate compreendido por técnicas
de projeções, imobilizações,
estrangulamentos, chaves e golpes traumáticos,
essencialmente. Praticado pelas classes guerreiras do
antigo Japão Feudal, era parte integrante do severo
treinamento dos samurais, juntamente com a prática
do kenjutsu (espada), kyudo (arco-e-flecha), entre outros.
A
idéia era de que o guerreiro, quando desprovido de
suas armas no campo de batalha, pudesse ainda liquidar o
inimigo de mãos vazias. E note-se, quando se fala
em derrotar um oponente, não existiam pontos, regras
ou vinte minutos de luta atracada no solo. Era matar ou
morrer, e tudo em questão de segundos. Isto exigia,
como se pode imaginar, muita técnica, autocontrole
e objetividade. Assim, quando assistimos aos campeonatos
de hoje, na forma esportiva para a qual o Jiu Jitsu “evoluiu”,
parece um tanto absurdo imaginar um samurai japonês
em sua armadura atirar-se de costas no chão para
enfrentar um inimigo. O mais provável é que
ele ficasse debatendo-se como uma tartaruga sobre o casco,
batendo as pernas no ar, esperando ser devorado por uma
ave de rapina.
Apesar
da antiqüíssima origem dessas técnicas
marciais, estas não eram praticadas inicialmente
de um modo sistematizado. Foi só a partir da Era
Edo, quando o Japão passou por períodos prolongados
de paz, que o Jiu-Jitsu passou de uma coleção
de golpes letais para um sistema organizado, enfocando o
refinamento técnico e filosófico, e obtendo
assim o status de Arte Marcial.
Foi
um período de surgimento de diversas escolas, cada
qual com estilo e tradições próprios.
Dentre algumas das escolas mais eminentes, podem-se citar
a Kito Ryu, famosa por suas técnicas de projeção,
a Takeuchi Ryu, especializada em imobilizações,
a Tenshin Shinyo Ryu, com seus poderosos atemis e luta de
solo, e a Daito Ryu Aikijujutsu, cujo enfoque era torções
e uso da energia interna. A rivalidade entre as diferentes
escolas era grande, culminando em violentos desafios.
Não
havia na época um escalonamento dos praticantes por
sistemas de faixas coloridas como conhecemos hoje, sendo
as aulas ministradas separadamente para estudantes em diferentes
estágios. O nível inicial, ou shoden, era
destinado ao público em geral, com técnicas
básicas e menos perigosas. Deste grupo, com base
na capacidade, dedicação e comprometimento
com a escola, apenas alguns eram aceitos para os níveis
seguintes, como o chuden (intermediário) e okuden
(avançado).
A
origem do Jiu-Jitsu em solos brasileiros é controversa,
pois confunde-se com a história da introdução
do Judô no nosso país. Isto ocorreu pelo fato
de que as duas artes eram referidas por algumas pessoas
como sinônimos, e muitos mestres de Judô também
haviam estudado Jiu-Jitsu. De todo modo, não havia
(como ainda não há) para o Jiu Jitsu um “Quartel
General” que unisse seus praticantes, como é
o Kodokan para o Judô e o Hombu Dojô, para o
Aikidô. Sem um ponto de referência, a Arte Suave
ficou à mercê de alguns indivíduos que
começaram a reivindicar sua paternidade, e conferindo
a si mesmos o título de mestres. A desqualificação
técnica destes “mestres” torna-se evidente
quando verificamos seu total desconhecimento da luta em
pé, e mais ainda quando batizam com seu próprio
nome golpes que já existiam há séculos.
A
falta de uma Meca acabou prejudicando também a formação
de federações ou confederações
coesas, sem conflitos políticos que nada fazem senão
atrasar o avanço do Jiu-Jitsu como esporte competitivo
e organizado. Apesar de tudo, sobrevivem até hoje
em alguns países escolas preocupadas em preservar
os ideais do Jiu-Jitsu clássico, sobretudo quanto
a seus valores morais, éticos e técnicos.
Obs. : Antonio Borrego, nascido
em 19/03/76 é médico veterinário, praticante
do Messias Jiu-Jitsu desde 12 de Setembro de 2003. Seu grande
interesse pela verdadeira “arte suave” o faz
um aluno aplicado e muito estudioso das técnicas
milenares que hoje são ensinadas pelo Shi-han Messias.